segunda-feira, 15 de junho de 2020

Patologia de estruturas

Após feitos como as pirâmides do Egito, Stonehenge, a acrópole de Atenas, etc. A ideia de que as coisas duram para sempre parece invadir as mentes mais incautas durante a concepção e a execução de um projeto. As matérias-primas e suas estruturas derivadas estão sujeitas a mais ações do que as previstas durante a execução e podem apresentar variações, às vezes, muito além daquelas contempladas com um projeto, seja de cálculo, seja arquitetônico; por isso, fomos agraciados em 2013 com uma norma que ampara o profissional evitando assim confusões com clientes e melhoria na escolha sobre a vida útil de um material, essa é a norma de desempenho NBR 15.575 e espero falar mais sobre ela em um post futuro.

Mas este artigo é uma pequena introdução sobre a patologia das construções e, como tentar evitá-las, ênfase no “tentar” pois uma edificação ao sofrer ações inesperadas vai se comportar de maneira inesperada, devo também dizer que a imprudência e pior, a negligência dos profissionais envolvidos pode ter consequências graves como a perda total de patrimônio edificado e mais importante, de vidas.

A patologia das construções é uma área que estuda, identifica e monitora anomalias da estrutura e elementos de uma edificação; ela visa diagnosticar, e a partir daí, definir uma ação de profilaxia e saneamento. Tudo se inicia com a elaboração de hipóteses que irão definir um curso que vai desde o levantamento de dados da causa até a execução da medida corretiva. Não há como falar de patologia sem citar desempenho, pois é justamente a vida útil de uma estrutura ou componente, que define os tipos de problemas que ela pode vir a apresentar ao longo do tempo, problemas estes oriundos de concepção e projeto, materiais, execução, utilização, acidentes, desgastes naturais e force majeure.

A grande parte dos problemas se concentra em concepção de projeto e em execução, elementos inadequados ou ineficientes geram problemas de compatibilização que podem resultar em dimensionamentos insuficientes, bem com a especificação inadequada ou de qualidade abaixo da esperada (aqui há um ponto bem interessante, a epítome da frase “o barato sai caro”) dos materiais pode criar anomalias que irão surgir a médio e longo prazo, mas ainda assim abaixo do desempenho previsto.

As patologias geradas na etapa de execução que estão diretamente ligadas ao elemento humano estão se tornando cada vez menos comuns hoje em dia, isso vale também para problemas de execução relacionados a insumos, porque estes insumos possuem normas próprias e mesmo que sua utilização acarrete em problemas, estes são inerentes ao mau uso e imperícia do profissional, e isso inclui “todos” os profissionais envolvidos. É claro que isso não exime as empresas que produzem estes insumos, de culpa diante de um problema claramente ligado a um material defeituoso, um parafuso normatizado que não resistiu à solicitação de carga à qual ele está dimensionado é passível de processo jurídico, o que vem muito tardio e não atenua em nada uma perda de cunho sentimental, como a morte de um familiar. Devido a isso é preciso escolher materiais que garantam o que prometem e sejam específicos para determinado trabalho, e infelizmente, mesmo assim, estão sujeitos à outras variáveis possíveis.

Causas


Então, quais as causas possíveis para patologias dentro da construção civil? Bem, podemos dividir as causas em internas e externas; internas são relacionadas aos processos de deterioração ligados à estrutura em si, Souza (1998) divide estas causas da seguinte maneira:

-Falha humana durante a construção, o que pode ser proveniente de problemas na concretagem, escoramentos inadequados, armaduras deficientes, incorreto uso dos materiais e a falta de um controle de qualidade rigoroso;
-Falha humana durante a utilização, causa diretamente ligada a ausência de um cronograma de manutenção;
-Causas naturais, que decorrem de causas físicas, químicas ou biológicas, como musgo, líquens, mofo e afins.

Já as externas dizem respeito a falhas que independem da estrutura como:

-Falhas humanas, o que neste quesito inclui alterações estruturais que podem acarretar em sobrecargas não dimensionadas e falhas na capacidade de carga da estrutura;
-Ações acidentais ligadas a terceiros, cargas provenientes de outros elementos, como as fundações;
-Ações físicas, químicas e biológicas;
-Ações de força maior: granizo, furacões, enchentes, etc.

É interessante citar que sem o acompanhamento de um profissional habilitado, uma alteração que parece ser benéfica pode produzir efeitos catastróficos na edificação, a retirada de um elemento estrutural, como um pilar ou parede, claramente (advérbio aqui colocado como motivo de chacota, visto o edifício Liberdade1, na cidade do Rio de Janeiro), acarreta em diminuição do suporte de uma estrutura; mas o mais interessante é: você sabia que a colocação de um elemento estrutural pode também comprometer uma estrutura? E não estou falando de adição de carga pontual com algum elemento horizontal, um vão onde um pilar é adicionado pode ter a ferragem da viga superior comprometida simplesmente pela mudança de tensões, por isso a necessidade de acompanhamento de um profissional é imprescindível, a estrutura é um sistema orgânico, alterações em alguns lugares causam mudanças em outros.

As patologias em si serão materiais para outro post visto que esta ciência é muito extensa, em breve continuarei com o assunto e espero sua companhia.

Beatam vitam!!

Equipe [reticulado].

1 O edifício Liberdade desabou em 25 de janeiro de 2012, na avenida Treze de Maio, no centro do Rio. As obras que ocorriam no nono andar danificaram a estrutura e comprometeram o edifício. <https://bit.ly/3cYYvvB>

SOUZA, Vicente Custódio de; RIPPER, Thomaz. Patologia, recuperação e reforço de estruturas de concreto. São Paulo: Pini, 1998.
REBELLO, Yopanan Conrado Pereira. Concepção Estrutural e a Arquitetura. São Paulo: Zigurate Editora, 2000.
THOMAZ, Ércio Et al. Manual técnico de Alvenaria. São Paulo: ABCI-Associação Brasileira da Construção Industrializada, 1990.

sábado, 6 de junho de 2020

O Seu "Home Office"

A pandemia do Covid-19 alterou drasticamente o mercado de trabalho em todo o mundo, muitas empresas, que ainda não adotavam o trabalho remoto, foram obrigadas a aderir ao sistema! Com isso, vários funcionários, do dia para a noite, passaram a trabalhar de casa de forma remota.  O home office é, sem dúvidas, uma ótima idéia além de ser extremamente viável economicamente, desde que as pessoas tenham disciplina e organização pessoal! Eis, então, que surge o problema: nem todos as pessoas possuem um espaço em casa para chamá-lo de "Office".

Eu, particularmente, faço Home Office há quase dois anos e vou te dizer que nem tudo é flores! Frases como: "vou poder acordar mais tarde", "não vou perder horas no trânsito" e "vou fazer meu próprio horário" são clássicas e nem sempre são verdade, sem disciplina seu rendimento pode até piorar, então, antes de falar do espaço físico em si (que é meu foco aqui), vou relembrar algumas dicas importantíssimas para quem se encontra nesta situação!

1. Disciplina! Sim, parece óbvio, mas, uma vez um cliente me disse a seguinte frase: "o óbvio precisa ser dito". Neste caso, se você está trabalhando, mesmo que em casa, então porte-se como tal! Tenha horários definidos para iniciar, para almoçar, para finalizar o expediente e cumpra-os de forma exemplar. 

2. Vista-se! Sim, vista-se! Não precisa colocar terno e gravata, mas, é super importante que saia do pijama! Para muitos pode parecer bobagem, mas seu cérebro entenderá o recado, inconscientemente, ele mudará seu foco! Seu corpo e sua mente trabalham por estímulos, se continuar em módulo "vou passar o dia na cama assistindo Netflix®” você não vai conseguir fazer nada.

3. Crie uma Rotina. Se você é daquelas pessoas que só funcionam depois de um belo café da manhã, ou precisa de um banho pela manhã para iniciar o dia, não comece seu trabalho sem ter finalizado seu próprio ritual matinal, isso evitará interrupções durante o processo produtivo e fará você perder o foco.

4. Lista de tarefas. Sou suspeito para falar, eu faço lista até das listas que tenho que fazer! Mas em casa, sem uma equipe ou sem seu chefe te lembrando do que é importante ou não, geralmente, nosso cérebro opta por tarefas mais prazerosas e, nem sempre, são as mais importantes, então para não perder tempo com coisas menos importantes, tenha uma lista de tarefas e de preferência, compartilhada com alguém do seu time para que essa pessoa possa te "cobrar". 

5. Tenha seu espaço! Este é o ponto em que eu queria chegar! Sim, para fazer home office, você precisa ter um local específico. Trabalhar remotamente uma vez ou outra é mais simples. Você conseguirá fazer no sofá da sala, na mesa de jantar ou em algum outro canto em sua casa. Mas trabalhar diariamente acampado não é uma boa ideia! Já imaginou montar seu escritório na mesa de jantar? E precisar retirar duas vezes ao dia durante o almoço e a janta? Ou então no sofá da sala, participando de uma videoconferência importante, enquanto alguém assiste uma série ao seu lado?  É, parece inviável.  Quanto menos tempo você perder com atividades não importante, como ficar movimentando seu espaço de trabalho para coexistir com sua vida pessoal, mais tempo você terá para focar no que realmente importa, ser mais produtivo, finalizar as tarefas mais cedo e aproveitar mais sua família! A receita parece simples, não é mesmo?  Mas não é! 


Nossa produtividade está diretamente relacionada com nossa satisfação em desenvolver alguma atividade e, tenho que te dizer, que o espaço físico influencia diretamente no comportamento e no humor das pessoas. Dito isto, posso argumentar que um local improvisado para trabalhar em casa, ao longo do tempo, somente prejudicará o trabalho e, em alguns casos, as pessoas podem até ter asco do trabalho por se sentirem incapazes de realizá-los!

Então, foco. Escolha o lugar onde trabalhar! Opte por um local reservado, longe das atividades da casa se possível, um local onde possa passar horas ali sem ser incomodado. Tenha certeza que tudo que você precisa para seu trabalho esteja à mão: seu computador, internet, canetas, papéis, café e água… qualquer coisa que você precise para trabalhar deve fazer parte de seu planejamento, mas cuidado para não hibernar em seu espaço! As pausas são importantes e necessárias, eu recomendo utilizarem a técnica do Pomodoro que é bem simples, mas extremamente eficaz (vou deixar essa para um próximo post sobre produtividade). Depois de definir o local e os objetos, não se esqueça da ergonomia, mesas e cadeiras adequadas são necessárias e importantes para seu conforto. Sei que nem todo mundo pode se dar ao luxo de comprar poltronas de trabalho com ajustes de braço e protetores de lombar, mas se sua empresa não te der este suporte, (o que eu acredito que em um futuro breve será assim, a empresa montará seu office em casa com mesa, cadeiras e computadores) você precisará ter alguma preocupação com a relação das alturas entre mesa e cadeira, o conforto do assento, ângulo do encosto da cadeira, dimensão mínima da mesa de trabalho… coisas simples, que ninguém diz e que farão diferença. A iluminação é outro ponto importante! Afinal, a Iluminância necessária para o trabalho é bem maior que a iluminância de áreas de vivência comum, segundo a NBR 5413/1992 a iluminância mínima para área de trabalho são 300 lux, podendo chegar até 1500 lux (em breve falarei um pouco mais sobre isso). 

Se você não tem idéia de como fazer isso, ou não quer perder tempo com estas preocupações, pode optar por um profissional da área de arquitetura. Arquitetos de interiores estão acostumados com esse tipo de situação e saberão arrumar seu espaço de forma simples e funcional para que você tenha  máximo conforto, aumentando sua satisfação e produtividade no trabalho. E agora é o momento que vc diz: "Contratar um arquiteto?! Isso é muito caro!". Calma! Primeiro, você não precisa de um projeto propriamente dito para seu home office, muitas vezes uma consultoria de uma ou duas horas pode resolver seu problema. Somente em casos em situações mais complexas e quando há reformas de fato, justificaria um projeto com um custo bem mais elevado mas não quero me alongar neste assunto hoje. 

Contudo, o Home Office precisa ser uma extensão do escritório, onde você tenha condições de conforto, de concentração, de prazer e todos os recursos para desenvolver sua atividade profissional. Negligenciar os pontos expostos acima, pode ter um grande impacto na sua produtividade e posteriormente, no seu trabalho em si. Este momento de introspecção gerado pela pandemia, vai marcar para sempre como trabalhamos e, mais importante, como as empresas vão “olhar” para o trabalhador remoto,  por isso é tão importante que essa adaptação seja a mais gradativa possível até que você possa chamar seu home office de “lugar de trabalho” e não “um canto onde trabalho”.



Equipe [reticulado].



PS: Para quem se interessar mais sobre o assunto, vou deixar o Link aqui de alguns e-books gratuitos (para Kindle Unlimited) sobre o tema. 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Têxteis na construção


Os produtos têxteis estão presente em praticamente todos os setores industriais, do agrícola até o aeroespacial, isso inclui, portanto, a construção civil. Todo arquiteto já se encontrou com eles durante sua ida à obra, mas pode não ter notado que ele estava presente, isso porque, fora seu uso óbvio para vestuário e decoração, alguns têxteis diferenciados, chamados de têxteis técnicos já vem consolidados junto a outros materiais de construção e por isso passam muitas vezes despercebidos. Este texto irá esclarecer alguns termos e mostrar onde na construção estão os têxteis, assim como a maneira de interpretar suas características para dispor melhor seu uso.
Mas afinal, qual a definição de têxtil? Bom, genericamente falando, todo material que é constituído de fibras entrelaçadas ou consolidadas de alguma maneira pode ser chamado de têxtil, genericamente porque, apesar de ser constituídos de fibras, alguns produtos não são têxteis, como uma bicicleta de fibra de carbono ou um barco de fibra de vidro, estes materiais se chamam compósitos, que podem ou não usar têxteis em sua composição. 

Matéria prima


Todo têxtil é constituído de fibras, as formas como estas fibras se apresentam definem as características finais do produto. A sequência lógica seria “a fibra forma o fio que forma o tecido”, mas isso era antes da produção de algo chamado “polímero” ou para os mais íntimos, plástico. Com o advento do plástico, os fios puderam ser formados diretamente e então, se necessário, cortados em pedaços pequenos, tornando-se fibras que serão usadas em conjunto com outras fibras (você tem ou já teve uma camiseta de poliéster/algodão, ou seja, o fio tem fibras de algodão e fibras de poliéster entrelaçadas). 

Há uma lógica aqui que não deve ser esquecida, todo plástico é um polímero, mas nem todo polímero vai se tornar um plástico. Dito isto, hoje as fibras têxteis se classificam, segundo a NBR 12744, em naturais (vegetais, animais, minerais) e manufaturadas (artificiais e sintéticas).

Dentro da construção civil, as fibras naturais que tem importância são as fibras vegetais (algodão, linho, sisal, etc.), as fibras minerais (asbesto, mais conhecido como amianto) e as manufaturadas. Nesse quesito, as palavras artificial e sintética parecem sinônimos, e provavelmente os vendedores finais de produtos têxteis nem se dão ao trabalho de separá-las, ou seja, ao comprar tecido para uma cortina ou estofamento por exemplo, e alguém disser que é 100% acrílico não há sequer a menção da palavra sintética, ou pior, são ditas como a mesma coisa. Para nunca mais esquecer, fibra artificial é produzida com moléculas já existentes na natureza, viscose é artificial pois usa celulose no seu processo; fibra sintética é produzida a partir de uma molécula que precisa ser sintetizada em laboratório, a mais famosa é o poliéster.

É de suma importância saber qual fibra usar em qual situação, principalmente se a escolha fica a cargo do arquiteto (as empresas especializadas que tem um nome a zelar já sabem quais produtos usar), todas as fibras têm características distintas que serão passadas ao produto final, não importa o quão bonito seja, um tecido de viscose tem baixa resistência quando molhado assim como o sisal possui notável resistência à água salgada. Saber quais são as características das fibras influi diretamente no uso do produto têxtil.

Fibras podem ser usadas in natura dentro da construção civil, pisos de concreto levam fibras para reforço estrutural, os chamados CRF, as fibras mais usadas são as fibras de aço e polipropileno, podendo ser utilizadas também fibras de vidro e carbono.

Tecido


Usando as fibras e fios podemos formar o substrato têxtil, os processos de formação são a grosso modo, sintetizados em três; tecelagem, malharia e nãotecido (sim, se escreve sem hífen, NBR 13370). 

O processo de tecelagem produz os chamados tecidos planos (cortinas, roupas de cama, estofamentos, mantas, etc.), produtos de malharia praticamente não são muito usados na construção civil na parte decorativa, devido a sua falta de estabilidade dimensional; pense naquela sua blusa de malha, se pendurada em um cabide, vai deformar nos ombros onde há o contato com o cabide somente com a ação do seu próprio peso, imagine agora uma cortina com três metros de comprimento, ela se deformaria com muita facilidade; mas são usados em geotêxteis (mais abaixo). Os nãotecidos são muito usados, principalmente como têxteis técnicos, são uma classe muito crescente hoje e são encontrados desde o paisagismo até suporte estrutural de solo, sem contar, filtros, mantas, estruturas e instalações.

Tecelagem. Fonte: Própria

Tecidos de tecelagem plana possuem fios na horizontal e na vertical, entrelaçados de diferentes maneiras (ligamentos) formando a geometria do tecido, agora, isso é importante: esses fios são chamados de urdume e trama. A importância (uma delas) está ligada a resistência do tecido dependendo de onde vem a solicitação de força, fios de urdume são mais resistentes que os fios de trama devido ao processo de tecelagem, um tecido pode ter mais resistência no sentido do urdume do que no sentido da trama, eu digo “pode” porque os têxteis são como Legos®, posso montar um tecido da maneira que eu quiser (geralmente mais em conta) e é comum encontrar um urdume mais resistente. Se o sentido do fio implica em mais ou menos resistência, então também influencia na escolha da posição deste tecido na hora de sua aplicação. Você viu um tecido que achou excelente e gostaria de usá-lo para decoração, vai montar um painel que vai ficar pendurado, seria importante saber em que sentido ele tem mais resistência, então como descobrir? Via de regra, em um rolo de tecido, os fios paralelos à sua largura são fios de trama, os fios paralelos ao seu comprimento, são fios de urdume. Na dúvida, todo vendedor deve ter uma ficha técnica do tecido, onde estão descritas suas características e propriedades, elas possuem informações bem interessantes que vão ajudar na sua decisão.

O processo de malharia possui fios que são entrelaçados por laços, formando uma estrutura plana, parecida com uma rede, esta rede não possui uma estabilidade dimensional muito boa, mas essa condição deformável é, dependendo da ocasião, bem-vinda quando se trata de contenção de solos.

Malharia. Fonte: Própria

Os nãotecidos possuem fibras com orientações aleatórias solidarizadas por métodos diferentes ou pela combinação deles, podem ser consolidadas por adesão química, térmica ou mecânica. A famosa manta geotêxtil, muito usada em jardins, é uma manta de polietileno consolidada por adesão mecânica.

Nãotecido. Fonte: Própria

Ligamentos e densidade


Como os tecidos de malhas não são muito usados na construção civil (o que não tira sua importância dentro da indústria têxtil), vou abordar os ligamentos do tecido plano, eles são importantes porque eles têm a função de definir a resistência e aparência de um tecido, o que dita seu uso. 

Os ligamentos base são: tela, sarja e cetim. Em conjunto com uma gama virtualmente infinita de passamentos, os ligamentos produzem padrões, estes sim são bem conhecidos: tweed, pied-de-poule, risca de giz, etc. Quando se fala que todo arquiteto usa calça de sarja, isto se refere ao ligamento, não à matéria-prima do tecido (não confunda jeans com sarja, jeans precisa ter algumas características para ser definido como tal, ele usa sarja como ligamento, mas também pode usar cetim).

Apesar da quantidade e o tipo de fios usados tanto na trama quanto no urdume definirem o peso do tecido, quanto mais fios, mais denso, mas nem por isso mais pesado; vendedores adoram usar essa informação para enaltecer um produto, “esse lençol tem 400 fios, e é feito de algodão egípcio, penteado e mercerizado!”, embora a densidade imbua o tecido com qualidades ela também tira qualidades do seu bolso, e às vezes, não é necessário para o uso que se destina, como montar o enxoval de um hotel que não seja de luxo, ou seja de luxo, afinal, são vários fatores que influem na qualidade do tecido, não só a densidade. Bom, 400 fios no fim significam que o tecido possui 400 fios (tanto de urdume, quanto trama) dispostos dentro de uma polegada quadrada (viva o sistema inglês, #sóquenão). Quanto mais fios dentro do mesmo espaço, mais finos eles precisam ser e, portanto, podem pesar, dependendo da matéria prima, mais ou menos em relação a outro tecido de mesma composição. Por isso, cuidado com informações extras, algumas interessam para a escolha, enquanto outras só fazem sentido para quem produz o material, seria como todo arquiteto ou engenheiro dizer que “...este cimento é um Portland, clinquerizado, com moagem fina de 200 malhas...”, informação adicional sem sentido que não adiciona nada para quem usa, muita atenção também a nomes diferentes para a mesma coisa, mas com preços diferentes.

A densidade de um tecido também é medida em fios por centímetro, tanto para o urdume quanto para trama, essa sim é a medida usual para composição de peso e posterior precificação de itens dentro da indústria têxtil.

O peso de um tecido influi, novamente, no seu uso, tecidos pesados têm excelente isolamento acústico, cortinas drapeadas acima de 500g/m2 possuem um coeficiente de redução de som que pode chegar a 0,8 (quanto maior o número melhor a absorção de som, diminuindo a reverberação), já um carpete colocado sobre um piso concreto possui somente 0,2.

Corantes e solidez


Que aquele tecido deixado ao ar livre vai perder coloração, isso é fato, a luz do sol decompõe as moléculas dos pigmentos através de um processo chamado fotodegradação, mas o tempo que isso vai levar para acontecer é definido por uma característica do tingimento, a solidez de cor. Existem vários tipos de solidez de cor, à luz, à lavagem, ao cloro, à água do mar, à fricção, etc., e cada corante possui suas propriedades em relação aos tipos de solidez, assim como cada tipo de fibra possui um corante específico. Precisa adquirir um tecido para uma estrutura externa, ou usar em um projeto de arquitetura efêmera? As características que você precisa procurar estão diretamente ligadas aos tipos de solidez do tecido, descritos em sua ficha técnica. Aquele tecido fantástico, impermeável, com boa densidade, próprio para uso externo e com uma cor intensa, pode ter baixa solidez de cor à luz solar, lembre-se que quem vende não precisa dizer quanto tempo perdura uma intensidade, apenas que ela possui determinada cor. Não é só a luz solar que desbota as cores do tecido, papéis de parede de tecido podem perder a cor pela exposição à luz artificial usada nos interiores das edificações. (Corantes fazem parte de uma área muito vasta dentro da produção têxtil, chamada de tingimento e estamparia, se quiser saber mais, comente, quem sabe podemos gerar um post específico no futuro.)

Geotêxteis


São tecidos feitos de fibras manufaturadas sintéticas (lembram lá no ínicio?), como poliéster, polietileno e polipropileno; alguns também são feitos de fibra de vidro. Eles não usam fibras naturais pois estas se degradam muito rápido, podem ser produzidos pelos três processos: tecelagem, malharia e nãotecidos.

Possuem como principais aplicações a drenagem de água, a filtragem, a separação de camadas e o reforço de solo. Geotêxteis, geomembranas, geogrelhas, georredes e geocompostos fazem parte dos geossintéticos, porém somente os geotêxteis podem ser considerados tecidos propriamente ditos.

Geotêxtil consolidado por adesão mecânica, note os furos (em branco) do processo de agulhagem. Fonte: Própria.

É claro que sempre haverá o ineditismo, onde pode ser encontrado um determinado material que supostamente não deveria estar lá, isso não deve ser confundido com mau uso, pelos menos não à primeira vista. É imperativo conhecer os materiais que utilizamos em projetos pois eles possuem propriedades que podem solucionar ou causar problemas com seu uso, espero que este texto tenha apontado os têxteis como elementos necessários dentro da construção civil e os cuidados para escolher o melhor material dentro do tema para o seu projeto. 


Beatam vitam!

Equipe [reticulado].


BRAJA, M. Das, Fundamentos de engenharia geotécnica, São Paulo: Cangage Learning, 2014.
PETRUCCI, Eládio g.r., Materiais de construção, São Paulo: Globo, 1998.
CAVANAUGH, William J.; TOCCI, Gregory C.; WILKES, Joseph A., Architectural acoustics, New Jersey: Wiley & sons, 2010.
SENAI, Tecelagem, São Paulo: Senai-SP, 2015.
DANIEL, Maria Helena, Guia prático dos tecidos, Osasco-SP: Novo século, 2011. 

Reuso de água

A importância da água para o planeta, é indiscutível. Todos sabemos, ou deveríamos saber, que ela é o combustível para toda a vida existente...