segunda-feira, 15 de junho de 2020

Patologia de estruturas

Após feitos como as pirâmides do Egito, Stonehenge, a acrópole de Atenas, etc. A ideia de que as coisas duram para sempre parece invadir as mentes mais incautas durante a concepção e a execução de um projeto. As matérias-primas e suas estruturas derivadas estão sujeitas a mais ações do que as previstas durante a execução e podem apresentar variações, às vezes, muito além daquelas contempladas com um projeto, seja de cálculo, seja arquitetônico; por isso, fomos agraciados em 2013 com uma norma que ampara o profissional evitando assim confusões com clientes e melhoria na escolha sobre a vida útil de um material, essa é a norma de desempenho NBR 15.575 e espero falar mais sobre ela em um post futuro.

Mas este artigo é uma pequena introdução sobre a patologia das construções e, como tentar evitá-las, ênfase no “tentar” pois uma edificação ao sofrer ações inesperadas vai se comportar de maneira inesperada, devo também dizer que a imprudência e pior, a negligência dos profissionais envolvidos pode ter consequências graves como a perda total de patrimônio edificado e mais importante, de vidas.

A patologia das construções é uma área que estuda, identifica e monitora anomalias da estrutura e elementos de uma edificação; ela visa diagnosticar, e a partir daí, definir uma ação de profilaxia e saneamento. Tudo se inicia com a elaboração de hipóteses que irão definir um curso que vai desde o levantamento de dados da causa até a execução da medida corretiva. Não há como falar de patologia sem citar desempenho, pois é justamente a vida útil de uma estrutura ou componente, que define os tipos de problemas que ela pode vir a apresentar ao longo do tempo, problemas estes oriundos de concepção e projeto, materiais, execução, utilização, acidentes, desgastes naturais e force majeure.

A grande parte dos problemas se concentra em concepção de projeto e em execução, elementos inadequados ou ineficientes geram problemas de compatibilização que podem resultar em dimensionamentos insuficientes, bem com a especificação inadequada ou de qualidade abaixo da esperada (aqui há um ponto bem interessante, a epítome da frase “o barato sai caro”) dos materiais pode criar anomalias que irão surgir a médio e longo prazo, mas ainda assim abaixo do desempenho previsto.

As patologias geradas na etapa de execução que estão diretamente ligadas ao elemento humano estão se tornando cada vez menos comuns hoje em dia, isso vale também para problemas de execução relacionados a insumos, porque estes insumos possuem normas próprias e mesmo que sua utilização acarrete em problemas, estes são inerentes ao mau uso e imperícia do profissional, e isso inclui “todos” os profissionais envolvidos. É claro que isso não exime as empresas que produzem estes insumos, de culpa diante de um problema claramente ligado a um material defeituoso, um parafuso normatizado que não resistiu à solicitação de carga à qual ele está dimensionado é passível de processo jurídico, o que vem muito tardio e não atenua em nada uma perda de cunho sentimental, como a morte de um familiar. Devido a isso é preciso escolher materiais que garantam o que prometem e sejam específicos para determinado trabalho, e infelizmente, mesmo assim, estão sujeitos à outras variáveis possíveis.

Causas


Então, quais as causas possíveis para patologias dentro da construção civil? Bem, podemos dividir as causas em internas e externas; internas são relacionadas aos processos de deterioração ligados à estrutura em si, Souza (1998) divide estas causas da seguinte maneira:

-Falha humana durante a construção, o que pode ser proveniente de problemas na concretagem, escoramentos inadequados, armaduras deficientes, incorreto uso dos materiais e a falta de um controle de qualidade rigoroso;
-Falha humana durante a utilização, causa diretamente ligada a ausência de um cronograma de manutenção;
-Causas naturais, que decorrem de causas físicas, químicas ou biológicas, como musgo, líquens, mofo e afins.

Já as externas dizem respeito a falhas que independem da estrutura como:

-Falhas humanas, o que neste quesito inclui alterações estruturais que podem acarretar em sobrecargas não dimensionadas e falhas na capacidade de carga da estrutura;
-Ações acidentais ligadas a terceiros, cargas provenientes de outros elementos, como as fundações;
-Ações físicas, químicas e biológicas;
-Ações de força maior: granizo, furacões, enchentes, etc.

É interessante citar que sem o acompanhamento de um profissional habilitado, uma alteração que parece ser benéfica pode produzir efeitos catastróficos na edificação, a retirada de um elemento estrutural, como um pilar ou parede, claramente (advérbio aqui colocado como motivo de chacota, visto o edifício Liberdade1, na cidade do Rio de Janeiro), acarreta em diminuição do suporte de uma estrutura; mas o mais interessante é: você sabia que a colocação de um elemento estrutural pode também comprometer uma estrutura? E não estou falando de adição de carga pontual com algum elemento horizontal, um vão onde um pilar é adicionado pode ter a ferragem da viga superior comprometida simplesmente pela mudança de tensões, por isso a necessidade de acompanhamento de um profissional é imprescindível, a estrutura é um sistema orgânico, alterações em alguns lugares causam mudanças em outros.

As patologias em si serão materiais para outro post visto que esta ciência é muito extensa, em breve continuarei com o assunto e espero sua companhia.

Beatam vitam!!

Equipe [reticulado].

1 O edifício Liberdade desabou em 25 de janeiro de 2012, na avenida Treze de Maio, no centro do Rio. As obras que ocorriam no nono andar danificaram a estrutura e comprometeram o edifício. <https://bit.ly/3cYYvvB>

SOUZA, Vicente Custódio de; RIPPER, Thomaz. Patologia, recuperação e reforço de estruturas de concreto. São Paulo: Pini, 1998.
REBELLO, Yopanan Conrado Pereira. Concepção Estrutural e a Arquitetura. São Paulo: Zigurate Editora, 2000.
THOMAZ, Ércio Et al. Manual técnico de Alvenaria. São Paulo: ABCI-Associação Brasileira da Construção Industrializada, 1990.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Reuso de água

A importância da água para o planeta, é indiscutível. Todos sabemos, ou deveríamos saber, que ela é o combustível para toda a vida existente...