segunda-feira, 1 de junho de 2020

Têxteis na construção


Os produtos têxteis estão presente em praticamente todos os setores industriais, do agrícola até o aeroespacial, isso inclui, portanto, a construção civil. Todo arquiteto já se encontrou com eles durante sua ida à obra, mas pode não ter notado que ele estava presente, isso porque, fora seu uso óbvio para vestuário e decoração, alguns têxteis diferenciados, chamados de têxteis técnicos já vem consolidados junto a outros materiais de construção e por isso passam muitas vezes despercebidos. Este texto irá esclarecer alguns termos e mostrar onde na construção estão os têxteis, assim como a maneira de interpretar suas características para dispor melhor seu uso.
Mas afinal, qual a definição de têxtil? Bom, genericamente falando, todo material que é constituído de fibras entrelaçadas ou consolidadas de alguma maneira pode ser chamado de têxtil, genericamente porque, apesar de ser constituídos de fibras, alguns produtos não são têxteis, como uma bicicleta de fibra de carbono ou um barco de fibra de vidro, estes materiais se chamam compósitos, que podem ou não usar têxteis em sua composição. 

Matéria prima


Todo têxtil é constituído de fibras, as formas como estas fibras se apresentam definem as características finais do produto. A sequência lógica seria “a fibra forma o fio que forma o tecido”, mas isso era antes da produção de algo chamado “polímero” ou para os mais íntimos, plástico. Com o advento do plástico, os fios puderam ser formados diretamente e então, se necessário, cortados em pedaços pequenos, tornando-se fibras que serão usadas em conjunto com outras fibras (você tem ou já teve uma camiseta de poliéster/algodão, ou seja, o fio tem fibras de algodão e fibras de poliéster entrelaçadas). 

Há uma lógica aqui que não deve ser esquecida, todo plástico é um polímero, mas nem todo polímero vai se tornar um plástico. Dito isto, hoje as fibras têxteis se classificam, segundo a NBR 12744, em naturais (vegetais, animais, minerais) e manufaturadas (artificiais e sintéticas).

Dentro da construção civil, as fibras naturais que tem importância são as fibras vegetais (algodão, linho, sisal, etc.), as fibras minerais (asbesto, mais conhecido como amianto) e as manufaturadas. Nesse quesito, as palavras artificial e sintética parecem sinônimos, e provavelmente os vendedores finais de produtos têxteis nem se dão ao trabalho de separá-las, ou seja, ao comprar tecido para uma cortina ou estofamento por exemplo, e alguém disser que é 100% acrílico não há sequer a menção da palavra sintética, ou pior, são ditas como a mesma coisa. Para nunca mais esquecer, fibra artificial é produzida com moléculas já existentes na natureza, viscose é artificial pois usa celulose no seu processo; fibra sintética é produzida a partir de uma molécula que precisa ser sintetizada em laboratório, a mais famosa é o poliéster.

É de suma importância saber qual fibra usar em qual situação, principalmente se a escolha fica a cargo do arquiteto (as empresas especializadas que tem um nome a zelar já sabem quais produtos usar), todas as fibras têm características distintas que serão passadas ao produto final, não importa o quão bonito seja, um tecido de viscose tem baixa resistência quando molhado assim como o sisal possui notável resistência à água salgada. Saber quais são as características das fibras influi diretamente no uso do produto têxtil.

Fibras podem ser usadas in natura dentro da construção civil, pisos de concreto levam fibras para reforço estrutural, os chamados CRF, as fibras mais usadas são as fibras de aço e polipropileno, podendo ser utilizadas também fibras de vidro e carbono.

Tecido


Usando as fibras e fios podemos formar o substrato têxtil, os processos de formação são a grosso modo, sintetizados em três; tecelagem, malharia e nãotecido (sim, se escreve sem hífen, NBR 13370). 

O processo de tecelagem produz os chamados tecidos planos (cortinas, roupas de cama, estofamentos, mantas, etc.), produtos de malharia praticamente não são muito usados na construção civil na parte decorativa, devido a sua falta de estabilidade dimensional; pense naquela sua blusa de malha, se pendurada em um cabide, vai deformar nos ombros onde há o contato com o cabide somente com a ação do seu próprio peso, imagine agora uma cortina com três metros de comprimento, ela se deformaria com muita facilidade; mas são usados em geotêxteis (mais abaixo). Os nãotecidos são muito usados, principalmente como têxteis técnicos, são uma classe muito crescente hoje e são encontrados desde o paisagismo até suporte estrutural de solo, sem contar, filtros, mantas, estruturas e instalações.

Tecelagem. Fonte: Própria

Tecidos de tecelagem plana possuem fios na horizontal e na vertical, entrelaçados de diferentes maneiras (ligamentos) formando a geometria do tecido, agora, isso é importante: esses fios são chamados de urdume e trama. A importância (uma delas) está ligada a resistência do tecido dependendo de onde vem a solicitação de força, fios de urdume são mais resistentes que os fios de trama devido ao processo de tecelagem, um tecido pode ter mais resistência no sentido do urdume do que no sentido da trama, eu digo “pode” porque os têxteis são como Legos®, posso montar um tecido da maneira que eu quiser (geralmente mais em conta) e é comum encontrar um urdume mais resistente. Se o sentido do fio implica em mais ou menos resistência, então também influencia na escolha da posição deste tecido na hora de sua aplicação. Você viu um tecido que achou excelente e gostaria de usá-lo para decoração, vai montar um painel que vai ficar pendurado, seria importante saber em que sentido ele tem mais resistência, então como descobrir? Via de regra, em um rolo de tecido, os fios paralelos à sua largura são fios de trama, os fios paralelos ao seu comprimento, são fios de urdume. Na dúvida, todo vendedor deve ter uma ficha técnica do tecido, onde estão descritas suas características e propriedades, elas possuem informações bem interessantes que vão ajudar na sua decisão.

O processo de malharia possui fios que são entrelaçados por laços, formando uma estrutura plana, parecida com uma rede, esta rede não possui uma estabilidade dimensional muito boa, mas essa condição deformável é, dependendo da ocasião, bem-vinda quando se trata de contenção de solos.

Malharia. Fonte: Própria

Os nãotecidos possuem fibras com orientações aleatórias solidarizadas por métodos diferentes ou pela combinação deles, podem ser consolidadas por adesão química, térmica ou mecânica. A famosa manta geotêxtil, muito usada em jardins, é uma manta de polietileno consolidada por adesão mecânica.

Nãotecido. Fonte: Própria

Ligamentos e densidade


Como os tecidos de malhas não são muito usados na construção civil (o que não tira sua importância dentro da indústria têxtil), vou abordar os ligamentos do tecido plano, eles são importantes porque eles têm a função de definir a resistência e aparência de um tecido, o que dita seu uso. 

Os ligamentos base são: tela, sarja e cetim. Em conjunto com uma gama virtualmente infinita de passamentos, os ligamentos produzem padrões, estes sim são bem conhecidos: tweed, pied-de-poule, risca de giz, etc. Quando se fala que todo arquiteto usa calça de sarja, isto se refere ao ligamento, não à matéria-prima do tecido (não confunda jeans com sarja, jeans precisa ter algumas características para ser definido como tal, ele usa sarja como ligamento, mas também pode usar cetim).

Apesar da quantidade e o tipo de fios usados tanto na trama quanto no urdume definirem o peso do tecido, quanto mais fios, mais denso, mas nem por isso mais pesado; vendedores adoram usar essa informação para enaltecer um produto, “esse lençol tem 400 fios, e é feito de algodão egípcio, penteado e mercerizado!”, embora a densidade imbua o tecido com qualidades ela também tira qualidades do seu bolso, e às vezes, não é necessário para o uso que se destina, como montar o enxoval de um hotel que não seja de luxo, ou seja de luxo, afinal, são vários fatores que influem na qualidade do tecido, não só a densidade. Bom, 400 fios no fim significam que o tecido possui 400 fios (tanto de urdume, quanto trama) dispostos dentro de uma polegada quadrada (viva o sistema inglês, #sóquenão). Quanto mais fios dentro do mesmo espaço, mais finos eles precisam ser e, portanto, podem pesar, dependendo da matéria prima, mais ou menos em relação a outro tecido de mesma composição. Por isso, cuidado com informações extras, algumas interessam para a escolha, enquanto outras só fazem sentido para quem produz o material, seria como todo arquiteto ou engenheiro dizer que “...este cimento é um Portland, clinquerizado, com moagem fina de 200 malhas...”, informação adicional sem sentido que não adiciona nada para quem usa, muita atenção também a nomes diferentes para a mesma coisa, mas com preços diferentes.

A densidade de um tecido também é medida em fios por centímetro, tanto para o urdume quanto para trama, essa sim é a medida usual para composição de peso e posterior precificação de itens dentro da indústria têxtil.

O peso de um tecido influi, novamente, no seu uso, tecidos pesados têm excelente isolamento acústico, cortinas drapeadas acima de 500g/m2 possuem um coeficiente de redução de som que pode chegar a 0,8 (quanto maior o número melhor a absorção de som, diminuindo a reverberação), já um carpete colocado sobre um piso concreto possui somente 0,2.

Corantes e solidez


Que aquele tecido deixado ao ar livre vai perder coloração, isso é fato, a luz do sol decompõe as moléculas dos pigmentos através de um processo chamado fotodegradação, mas o tempo que isso vai levar para acontecer é definido por uma característica do tingimento, a solidez de cor. Existem vários tipos de solidez de cor, à luz, à lavagem, ao cloro, à água do mar, à fricção, etc., e cada corante possui suas propriedades em relação aos tipos de solidez, assim como cada tipo de fibra possui um corante específico. Precisa adquirir um tecido para uma estrutura externa, ou usar em um projeto de arquitetura efêmera? As características que você precisa procurar estão diretamente ligadas aos tipos de solidez do tecido, descritos em sua ficha técnica. Aquele tecido fantástico, impermeável, com boa densidade, próprio para uso externo e com uma cor intensa, pode ter baixa solidez de cor à luz solar, lembre-se que quem vende não precisa dizer quanto tempo perdura uma intensidade, apenas que ela possui determinada cor. Não é só a luz solar que desbota as cores do tecido, papéis de parede de tecido podem perder a cor pela exposição à luz artificial usada nos interiores das edificações. (Corantes fazem parte de uma área muito vasta dentro da produção têxtil, chamada de tingimento e estamparia, se quiser saber mais, comente, quem sabe podemos gerar um post específico no futuro.)

Geotêxteis


São tecidos feitos de fibras manufaturadas sintéticas (lembram lá no ínicio?), como poliéster, polietileno e polipropileno; alguns também são feitos de fibra de vidro. Eles não usam fibras naturais pois estas se degradam muito rápido, podem ser produzidos pelos três processos: tecelagem, malharia e nãotecidos.

Possuem como principais aplicações a drenagem de água, a filtragem, a separação de camadas e o reforço de solo. Geotêxteis, geomembranas, geogrelhas, georredes e geocompostos fazem parte dos geossintéticos, porém somente os geotêxteis podem ser considerados tecidos propriamente ditos.

Geotêxtil consolidado por adesão mecânica, note os furos (em branco) do processo de agulhagem. Fonte: Própria.

É claro que sempre haverá o ineditismo, onde pode ser encontrado um determinado material que supostamente não deveria estar lá, isso não deve ser confundido com mau uso, pelos menos não à primeira vista. É imperativo conhecer os materiais que utilizamos em projetos pois eles possuem propriedades que podem solucionar ou causar problemas com seu uso, espero que este texto tenha apontado os têxteis como elementos necessários dentro da construção civil e os cuidados para escolher o melhor material dentro do tema para o seu projeto. 


Beatam vitam!

Equipe [reticulado].


BRAJA, M. Das, Fundamentos de engenharia geotécnica, São Paulo: Cangage Learning, 2014.
PETRUCCI, Eládio g.r., Materiais de construção, São Paulo: Globo, 1998.
CAVANAUGH, William J.; TOCCI, Gregory C.; WILKES, Joseph A., Architectural acoustics, New Jersey: Wiley & sons, 2010.
SENAI, Tecelagem, São Paulo: Senai-SP, 2015.
DANIEL, Maria Helena, Guia prático dos tecidos, Osasco-SP: Novo século, 2011. 

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